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terça-feira, 3 de março de 2015

Em caso de incêndio

Eu tenho mania de organização. Preciso alinhar os lençóis da cama mesmo antes de dormir. Os bibelôs da prateleira, assim como os livros, precisam estar sempre alinhados, no mesmo lugar, seguindo alguma ordem pré determinada. Eu guardo numa lata de colomba pascal alguns bilhetes que eu ganhei na 8ª série, embalagens de chocolate, aviões de papel, aliança de compromisso, palhetas e papeis de set list de shows. Tudo me lembra alguém, um momento, uma lembrança que eu faço questão de arquivar. Da mesma forma que as pastas no meu computador são separadas por temas e ocasiões e datas e assim por diante.
Parece frescura, eu sei, mas eu sou assim desde que consigo lembrar. 
Não sei se existiu alguma interferência na minha criação ou se nasci com essa característica. A realidade é que eu sou Metódica, com m maiúsculo. Preciso ter o controle das minhas coisas. Da minha agenda, do meu guarda-roupa, dos meus dvds, do meu quarto. Dito isso, é previsível que o momento em que eu perco o chão é quando não consigo controlar ou organizar alguma coisa. E isso acontece com certa frequência, mas não é nada físico, é a minha própria vida. Mas eu só dou conta quando me pego olhando as estrelas em cima da minha cama, me perguntando: "porra, e agora?". 
Eu, sempre segura de mim mesma, também perco a direção e recorro a alguém. No caso, é sempre o mesmo alguém. É a pessoa que sabe de cada detalhe das minhas manias, dos meus passos e percebe antes de mim quando estou prestes a soltar a mão do volante. 
Me conheceu numa época estranha, de mudança, de descobertas e sobreviveu a todas as tempestades. Resistiu, me deu a mão, me abraçou, me salvou de mim. Eu queria ter ele emoldurado na minha parede, protegido por um vidro em que eu pudesse quebrar em caso de emergência, no caso de eu não conseguir esticar o lençol da minha cama ou me apaixonar. 
Ao invés disso, mesmo que eu abrace ele menos do que eu gostaria e pague mais cervejas do que deveria, eu sei que ele vai me colocar na razão. Eu sei que ele vai me ligar enquanto eu estiver dormindo e mesmo de mau humor, eu vou rir, vou me sentir segura e vou entender que por mais que eu queira, eu não vou ter o controle de tudo. Que eu preciso de um amigo que segure a minha mão e, por que não, as minhas lágrimas. 

Fofe, espero ser pra você pelo menos metade do que você é pra mim.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Abacates que caem

Ela gosta da liberdade de escrever sem obrigação, de anotar trechos de músicas ou frases aleatórias no rascunho do celular pra usar de legenda nas fotos do Instagram. Ela prefere usar vestido de tênis e de ouvir as mesmas músicas sempre, até enjoar e parar de gostar da banda. Outra característica que a define é a convicção das ideias. Seja sobre política, feminismo ou vida pessoal – é daquelas que sabe falar de tudo um pouco, ou assume, sem vergonha nenhuma, de que não tem argumentos para continuar uma conversa.

Acompanho de longe sua transformação e digamos que 2014 foi um ano de descobertas. Todos aqueles tabus que ainda eram distantes foram apresentados pra ela – alguns não da melhor forma. Estupro, agressão, opressão policial, machismo e imposição de pessoas que estiveram sempre por perto. São palavras fortes das quais a maioria das pessoas se incomoda em ouvir (ou ler, no caso), mas vê-la sentir na pele tantas emoções e carregar tantas lembranças pro resto da vida é difícil até pra mim, que fico aqui, de longe, só observando.

Esse ano ela fez uma tatuagem. Alguma coisa sobre coragem, não sei direito o que significa. E faz todo sentido para o que ela tem vivido (e lá vou eu listar outra característica). Mas as descobertas não se limitam nas coisas ruins – esses dias a ouvi falando algo sobre “as mulheres da minha vida”. Por ter entrado nesse caminho sem ter pedido, ela conheceu outras pessoas que já trilhavam a mesma rota: Suzane, Camila, Clara, Ana, Jessica, Gabriela, Sofia, Stefanie, Carolina, Raphaella, Polly, Maria e outras tantas que trazem consigo histórias parecidas, carregadas de luta e emponderamento.

Mesmo com essas experiências, alguns hábitos permaneceram. Como o de cortar o cabelo quando quer deixar alguém ou alguma fase para trás – é claro que para um fardo tão grande faria com que muito cabelo entrasse na jogada, e não foi diferente. Ela tenta conciliar os estudos com a caixa de 48 cores de lápis de cor e as folhas do moleskine, com as revistas que chegam mensalmente e ela não consegue acompanhar a leitura, sem falar da pilha de livros que cresce na prateleira. Se não me engano, no próximo mês ela termina a graduação e o estágio, viaja pra pular as ondas e receber 2015 com uma página em branco e o resto do corpo pra tatuar.

Entre o barulho das folhas quando os abacates caem das árvores no chão e o LP do Tim Maia rodando na vitrola, a vejo passar na minha calçada, sempre sozinha, de fones e com um livro na mão. Tem uma capa inteira fúcsia, eu fico aqui, tentando imaginar sobre o que é, assim como qual música ela ouve pra decifrar qual banda ela vai enjoar dessa vez.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Espantou quem passou

Ter coragem pra ir além é mais difícil do que seguir adiante com a mosquinha da dúvida sempre zunindo no pé da orelha.
Vai um pouco mais profundo do que a tatuagem que eu carrego no braço, sempre ao alcance dos meus olhos.
Engraçado que eu já consigo ver o progresso daquela atitude que eu não tive.
Me renderia boas risadas e horas de amor platônico que moram na minha cabeça se tornarem reais.
Toda noite é um sonho diferente.
A cada novo filme em branco em que eu dou play para que a gravação comece, você me vem de uma forma. Ora como meu companheiro, ora como o pai dos filhos que eu nunca quis ter, ora como essa pessoa que você continua sendo, sem eu nunca sequer saber se acertei ou errei quando imaginei o quão bom de cama você poderia ser.
Imagem da Sala Espacial - por Ale Iafelice
É duro ter a imaginação tão fértil com a boca e a coragem tão pequenas.
"Ninguém gosta de ouvir não"
Eu me sinto com 15 de novo. Eu queria viver todos aqueles clichês mesmo sabendo o quanto é piegas.
Não me importo.
Minha iniciativa só vem quando eu medito demais e ponho de lado todo o peso das minhas escolhas erradas ou falta delas (das escolhas, não das más).
Se eu estruturasse em frases ditas as mesmas memórias e histórias que eu crio por (e com) você, talvez elas se tornassem reais, ou talvez pelo menos você soubesse que elas existem.
Te guardo no meu travesseiro, nos rascunhos do bloco de notas salvos no meu desktop, nas conversas quando me perguntam porque estou sorrindo, nos meus toques e no assunto em que eu mais tenha pensado nos últimos dias.
Pode ser que seja hora de tirar do caminho o que está ocupando espaço para que possa dar lugar a outra coisa.
Quase não acreditei quando você chegou.
 

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