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terça-feira, 19 de maio de 2015

Hoje vim pedir iniciativa

Hoje você tem a idade que eu sempre quis ter. Aos dez eu queria ter quinze pra namorar, aos quinze eu queria ter dezesseis pra trabalhar, aos dezesseis queria ter dezoito pra entrar no motel e aos dezoito eu namorava, trabalhava e ia bem menos ao motel do que gostaria.

Hoje você pode pegar o carro e ir pra praia num sábado de madrugada. Eu sempre quis ver o nascer do sol sentada na areia – por mais clichê que isso possa parecer. Queria colocar o som no último volume e cantar sem ter vergonha, dançar na areia quente e reclamar da areia no biquíni.

Hoje você tem responsabilidades, essas mesmas que eu sempre quis ter. Você estudou o que queria, se formou e tem uma profissão. Eu sempre quis te acompanhar nas idas ao bar da faculdade, nos churrascos na casa dos seus amigos, nas conversas de madrugada que tinham mais risadas do que assunto.

Hoje você é livre, do jeito que eu sempre quis ser. Pode fazer o que quiser, demorou, mas conseguiu livrar a cabeça e o coração da dependência de outras pessoas. Pode sair com quem e quando quer, pode virar a noite na rua, pode se jogar. Não precisa dar as malditas satisfações que eu tanto odeio, não precisa se justificar.

Hoje você atingiu as metas que eu sempre estipulei. Os planejamentos que eu insistia em fazer durante toda a minha vida foram concluídos com sucesso e eu odeio não saber o que vai acontecer. Você pode relaxar, trabalhar de casa, sair e virar a noite bebendo no litrão do Centro em plena segunda-feira.

Hoje você tem liberdade pra acreditar no que quiser. Eu sempre quis ser feminista, rezar pra algum Deus sem duvidar de nada e seguir uma religião sem ofender a crença da minha família. Você pode ir pros seus rituais de ayahuasca, sentir a fé e não precisar se explicar – eu odeio me explicar.

Hoje você corta o cabelo do jeito que quiser. Toda vez que a analista falava alguma coisa que eu não queria saber ou lembrar, eu queria deixar aquilo pra trás e cortar um pedaço do meu cabelo. Nunca pude, não era legal ter cabelo curto e cacheado...

Hoje você tem a vida que eu sempre quis ter e por que não está feliz? A conta ainda tá no azul, os amigos por perto, só falta perder o medo de dirigir. Não precisa ligar pra ninguém e pedir permissão, não precisa ter medo. E caso tenha, olha pro braço, corta mais um pouco do cabelo e fura logo esse piercing que eu sei que você quer.

Hoje você é quem eu sempre quis ser e por que não está feliz? Ninguém te conhece tanto quanto suas próprias palavras, essas mesmas que soam tão adolescentes e vindas do fotolog. Você pode fazer o que quer, tá ridículo continuar postando nesse blog como se fosse um diário. Pega logo o carro, vai pra praia e perde o medo de correr – seu tornozelo tá zerado, acredita em mim.

Hoje você pode fazer o que eu sempre quis.

Então faça.

sábado, 21 de março de 2015

Eu não sinto nada

Acordei achando que era terça. Ontem me entupi de pizza e brigadeiro e risada e filme de terror. É maravilhoso ter amigas como vizinhas. Tirei a maquiagem do rosto, ouvi um pouco de Gal e dormi. Pensei que hoje fosse terça, mas o ritual continua o mesmo: abro o olho, vejo tudo embaçado, agradeço pela chance de recomeçar. Sento na cama, procuro os chinelos, xixi, água gelada, ânsia de vômito quando escovo a língua, óculos no rosto. Estico os lençóis da cama, abro a janela, o gato senta e fica olhando pra viela.
Desci, tomei uma xícara de café com leite - sempre desnatado - minha mãe pergunta se perdi o sono. Volto pra cama, ligo a tv em algum desenho aleatório, com o dedo do pé ligo o computador e dou play no vídeo da Beyoncé. Penso que ainda são 9h e nenhum amigo tá acordado. Quero sair, quero conversar.
O celular toca. Sobe a notificação do whatsapp. "feijoada hoje?". Sim, por quê não? Pego carona pro centro de Diadema e vou na ótica buscar o óculos novo. Atravesso a rua e compro a Tpm desse mês na banca de jornal. Tento ligar pra uma amiga, celular desligado. Subo pro shopping e penso que devia ter vestido uma calça ao invés do short. Sinto frio. Saco dinheiro, entro em lojas de departamento. Encontro a amiga que tava com o telefone desligado. "já almoçou?" "só às 15h" "vou dar umas voltas e depois venho aqui te encontrar". São 13h.
Eu ainda quero alguém pra conversar. Ninguém online, hoje é sábado, deixa as pessoas dormirem. Abro a revista e leio a carta do editor. Dou mais uma volta inteira no andar. Entro em uma loja e sento na seção de calçados. Tá tocando Bruno Mars e o ar deve estar nos 18°c. Os pinos da minha perna doem. 20 cm de cicatriz latejam. É suportável.
Fazia tempo que não lia a Tpm. Especial sobre bundas. Adoro ler a Milly Lacombe. Tem um texto ótimo da Maria Ribeiro na última página. São 14h15. Devia escrever alguma coisa. As vendedoras estão me olhando. Vou fingir que estou esperando alguém. Digito esse texto no bloco de notas do celular. Tá frio demais aqui.
Não faria diferença alguma se hoje fosse terça.

terça-feira, 3 de março de 2015

Em caso de incêndio

Eu tenho mania de organização. Preciso alinhar os lençóis da cama mesmo antes de dormir. Os bibelôs da prateleira, assim como os livros, precisam estar sempre alinhados, no mesmo lugar, seguindo alguma ordem pré determinada. Eu guardo numa lata de colomba pascal alguns bilhetes que eu ganhei na 8ª série, embalagens de chocolate, aviões de papel, aliança de compromisso, palhetas e papeis de set list de shows. Tudo me lembra alguém, um momento, uma lembrança que eu faço questão de arquivar. Da mesma forma que as pastas no meu computador são separadas por temas e ocasiões e datas e assim por diante.
Parece frescura, eu sei, mas eu sou assim desde que consigo lembrar. 
Não sei se existiu alguma interferência na minha criação ou se nasci com essa característica. A realidade é que eu sou Metódica, com m maiúsculo. Preciso ter o controle das minhas coisas. Da minha agenda, do meu guarda-roupa, dos meus dvds, do meu quarto. Dito isso, é previsível que o momento em que eu perco o chão é quando não consigo controlar ou organizar alguma coisa. E isso acontece com certa frequência, mas não é nada físico, é a minha própria vida. Mas eu só dou conta quando me pego olhando as estrelas em cima da minha cama, me perguntando: "porra, e agora?". 
Eu, sempre segura de mim mesma, também perco a direção e recorro a alguém. No caso, é sempre o mesmo alguém. É a pessoa que sabe de cada detalhe das minhas manias, dos meus passos e percebe antes de mim quando estou prestes a soltar a mão do volante. 
Me conheceu numa época estranha, de mudança, de descobertas e sobreviveu a todas as tempestades. Resistiu, me deu a mão, me abraçou, me salvou de mim. Eu queria ter ele emoldurado na minha parede, protegido por um vidro em que eu pudesse quebrar em caso de emergência, no caso de eu não conseguir esticar o lençol da minha cama ou me apaixonar. 
Ao invés disso, mesmo que eu abrace ele menos do que eu gostaria e pague mais cervejas do que deveria, eu sei que ele vai me colocar na razão. Eu sei que ele vai me ligar enquanto eu estiver dormindo e mesmo de mau humor, eu vou rir, vou me sentir segura e vou entender que por mais que eu queira, eu não vou ter o controle de tudo. Que eu preciso de um amigo que segure a minha mão e, por que não, as minhas lágrimas. 

Fofe, espero ser pra você pelo menos metade do que você é pra mim.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Abacates que caem

Ela gosta da liberdade de escrever sem obrigação, de anotar trechos de músicas ou frases aleatórias no rascunho do celular pra usar de legenda nas fotos do Instagram. Ela prefere usar vestido de tênis e de ouvir as mesmas músicas sempre, até enjoar e parar de gostar da banda. Outra característica que a define é a convicção das ideias. Seja sobre política, feminismo ou vida pessoal – é daquelas que sabe falar de tudo um pouco, ou assume, sem vergonha nenhuma, de que não tem argumentos para continuar uma conversa.

Acompanho de longe sua transformação e digamos que 2014 foi um ano de descobertas. Todos aqueles tabus que ainda eram distantes foram apresentados pra ela – alguns não da melhor forma. Estupro, agressão, opressão policial, machismo e imposição de pessoas que estiveram sempre por perto. São palavras fortes das quais a maioria das pessoas se incomoda em ouvir (ou ler, no caso), mas vê-la sentir na pele tantas emoções e carregar tantas lembranças pro resto da vida é difícil até pra mim, que fico aqui, de longe, só observando.

Esse ano ela fez uma tatuagem. Alguma coisa sobre coragem, não sei direito o que significa. E faz todo sentido para o que ela tem vivido (e lá vou eu listar outra característica). Mas as descobertas não se limitam nas coisas ruins – esses dias a ouvi falando algo sobre “as mulheres da minha vida”. Por ter entrado nesse caminho sem ter pedido, ela conheceu outras pessoas que já trilhavam a mesma rota: Suzane, Camila, Clara, Ana, Jessica, Gabriela, Sofia, Stefanie, Carolina, Raphaella, Polly, Maria e outras tantas que trazem consigo histórias parecidas, carregadas de luta e emponderamento.

Mesmo com essas experiências, alguns hábitos permaneceram. Como o de cortar o cabelo quando quer deixar alguém ou alguma fase para trás – é claro que para um fardo tão grande faria com que muito cabelo entrasse na jogada, e não foi diferente. Ela tenta conciliar os estudos com a caixa de 48 cores de lápis de cor e as folhas do moleskine, com as revistas que chegam mensalmente e ela não consegue acompanhar a leitura, sem falar da pilha de livros que cresce na prateleira. Se não me engano, no próximo mês ela termina a graduação e o estágio, viaja pra pular as ondas e receber 2015 com uma página em branco e o resto do corpo pra tatuar.

Entre o barulho das folhas quando os abacates caem das árvores no chão e o LP do Tim Maia rodando na vitrola, a vejo passar na minha calçada, sempre sozinha, de fones e com um livro na mão. Tem uma capa inteira fúcsia, eu fico aqui, tentando imaginar sobre o que é, assim como qual música ela ouve pra decifrar qual banda ela vai enjoar dessa vez.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Espantou quem passou

Ter coragem pra ir além é mais difícil do que seguir adiante com a mosquinha da dúvida sempre zunindo no pé da orelha.
Vai um pouco mais profundo do que a tatuagem que eu carrego no braço, sempre ao alcance dos meus olhos.
Engraçado que eu já consigo ver o progresso daquela atitude que eu não tive.
Me renderia boas risadas e horas de amor platônico que moram na minha cabeça se tornarem reais.
Toda noite é um sonho diferente.
A cada novo filme em branco em que eu dou play para que a gravação comece, você me vem de uma forma. Ora como meu companheiro, ora como o pai dos filhos que eu nunca quis ter, ora como essa pessoa que você continua sendo, sem eu nunca sequer saber se acertei ou errei quando imaginei o quão bom de cama você poderia ser.
Imagem da Sala Espacial - por Ale Iafelice
É duro ter a imaginação tão fértil com a boca e a coragem tão pequenas.
"Ninguém gosta de ouvir não"
Eu me sinto com 15 de novo. Eu queria viver todos aqueles clichês mesmo sabendo o quanto é piegas.
Não me importo.
Minha iniciativa só vem quando eu medito demais e ponho de lado todo o peso das minhas escolhas erradas ou falta delas (das escolhas, não das más).
Se eu estruturasse em frases ditas as mesmas memórias e histórias que eu crio por (e com) você, talvez elas se tornassem reais, ou talvez pelo menos você soubesse que elas existem.
Te guardo no meu travesseiro, nos rascunhos do bloco de notas salvos no meu desktop, nas conversas quando me perguntam porque estou sorrindo, nos meus toques e no assunto em que eu mais tenha pensado nos últimos dias.
Pode ser que seja hora de tirar do caminho o que está ocupando espaço para que possa dar lugar a outra coisa.
Quase não acreditei quando você chegou.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A ignorância não me representa

No auge dos meus 21 (eu sei o quão ridículo isso soa) arrisco dizer que aprendi bastante coisa.
E quando digo coisas, quero ser ampla, mesmo. Em vários aspectos da vida, seja profissional ou pessoal.
Por exemplo, eu aprendi a ler e escrever aos 6, usar letra de mão aos 7, escolher as minhas roupas, meus amigos, quem eu queria por perto, qual curso eu iria fazer na faculdade e onde eu iria trabalhar.
Não foi fácil, claro.
Da mesma forma que eu optei por jornalismo, poderia ter escolhido administração.
Ou ao invés de gostar de escrever em pequenas frases e muitos pontos, poderia escrever novela, sei lá.
Tudo isso pra contextualizar que mesmo que eu acredite saber bastante coisa, existem muitas das quais eu não compreendo.
Calma, vou explicar.
Sabe o conflito entre Israel e o Hamas? Não consigo acreditar que existam argumentos para que, em pleno Século XXI, se justifique essa perversidade. Não importa quem tem razão, afinal, pessoas estão morrendo. Bombardearam uma escola em Gaza - mantida pela ONU - onde crianças dormiam. Eu não quero morar num mundo onde isso não é motivo para um imediato cessar-fogo.
Mas nem precisa ser algo tão complicado.
Eu não entendo coisas simples também: não sei se é do conhecimento de todos, mas a água (não só de São Paulo) está acabando. Faz meses que não chove e se você tiver o mínimo de contato com o mundo real, lembra da história do aquecimento global (sinto dizer que não foi um filme, é de verdade!).
E da escolinha, quando a professora ensinou a gente a plantar feijão no algodão, você lembra?
Ela explicou como cuidar para que ele crescesse forte e saudável.
Pois é, parece que a gente esqueceu isso também.
O pé de feijão morreu antes de ficar grande o suficiente pra chegar ao céu (igual aquele do João) e pedir pra São Pedro mandar chuva pra cá.
Ah, e sabe o que a gente faz enquanto isso? Finge que nada está acontecendo.
Às vezes tenho a impressão que água nem é tão importante assim, vai saber.
Falando em água, passada a Copa, as eleições estão quase aí e BOOM!
Outra coisa que eu não manjo nada: votar.
Mas quanto a isso eu fico tranquila, tenho certeza que essa dúvida assombra muito mais pessoas do que eu posso imaginar.
Eu tenho só 21, é mais fácil fingir que esse lance de eleição e escolher candidato são coisas pra gente que se importa.
Nem vou esquentar a cabeça, afinal, já acabou o horário político e começou a novela.

domingo, 25 de maio de 2014

Sensação de estar sendo observada

Da minha janela eu consigo vê-la.
Ela passa andando devagar, sem pressa, mesmo com a garoa que embaça os óculos.
Cigarro entre os dedos, isqueiro na outra.
Vejo ela entrando num boteco, conversa com o balconista. Ele a entrega uma long neck de cerveja, continuam conversando. Deve ser sobre o jogo que passa na televisão. Ela continua com essa mania de fingir se importar com o assunto do momento.
Ela paga, pede também uns chicletes e sai.
Mesmo de longe, percebo que ela está chapada.
Os olhos caídos e os sorrisos de canto da boca denunciam.
Também acendo um cigarro. Quero ver até onde ela vai.
Deve estar ouvindo alguma dessas bandas alternativas que declamam textos em melodias. Lembro que ela me dizia que se identificava. Um amigo em comum havia apresentado e desde então ela não parava de ouvir.
Ela parou no cruzamento da Paulista com a Augusta. O farol está aberto mas ela não atravessa. Deve estar pensando se está fazendo a coisa certa. Aperta a bolinha entre os dedos. Pra quê tanta indecisão?
"Aqui estou eu, há meia hora parado no cruzamento da Brigadeiro Luiz Antônio com a Avenida Paulista. Pensando. Simplesmente pensando".
Mesmo assim, desce sentido baixo Augusta. Parece atenta as faixadas dos bares. Será que procura alguém?
Um rapaz a para e pede alguma coisa. Ela mexe na bolsa, nos bolsos e percebe que estava em sua mão. Era o isqueiro. Os dois riem.
Continua descendo.
Pára numa esquina, acende outro cigarro e compra mais uma cerveja.
Agora, segura a garrafa e o cigarro com a mesma mão e a bolinha em outra. Aperta com tanta força que se não fosse de espuma já havia quebrado.
"Nesse tempo que eu parei aqui tantas pessoas passaram por mim: empresários, mendigos, boys...
E até o zé doidim, que eu mesmo reconheci. Pessoas com mundos totalmente diferentes, mas que, naquele momento, naquele cruzamento, se cruzaram! Interessante, né?!"

Por alguma razão, deve ter lido alguma coisa no celular, ela entra e senta no balcão do estabelecimento.
Outra cerveja.
Os olhos e a expressão não negam o efeito do baseado que ela já fumou. Agora, na terceira garrafa de cerveja ela já está alta o suficiente pra se arrepender das escolhas que está prestes a fazer.
Alguém a chama e ela se senta numa mesa. O lugar está cheio de gente. Ainda estão todos falando sobre o tal jogo de futebol, o mesmo do papo com o balconista minutos atrás.
Alguém liga. Ela atende, ri e a ligação cai.
Eu sei que ela está incomodada com alguma coisa. Não queria estar ali. Quer sempre mais do que acha que pode conseguir. Eu nunca a entendi por inteira...
Ela sai com um grupo de pessoas. Anda devagar, pensa rápido.
Por ora percebo que ela cogita voltar o caminho. Mas segue.
Outro cigarro e a mania de morder o piercing. Ela está realmente incomodada. Engraçado. Sempre se diz tão livre e realmente é. Não sei porque não segue suas vontades.
Se distancia do grupo e entra numa padaria. Sai sem comprar nada. Se afasta ainda mais. Agora não tem bolinha, nem isqueiro. Ela não quer estar ali. Tenho vontade de descer da minha janela e ir buscá-la. Parece que só precisa que alguém lhe dê a mão...
"Todos os dias, em vários lugares, milhares de pessoas se cruzam mas não se falam, pois não se conhecem, e nem ao menos se importam com isso."
Vejo que ela anda ainda por mais um quarteirão.
Pensa, menina.
Sai daí.
Ela fala alguma coisa com a turma e atravessa a rua correndo.
"Penso.
Naquele momento, naquele cruzamento, tanta solidão em movimento."

E continua correndo.
Corre.
Anda rápido.
Engole a cerveja que está na mão e anda.
Muito bem. Vem pra cá. Tenho o que você tanto busca, menina.
Alguém a puxa pelo braço. A cara dela condena a ação.
Conversam. Ela ri, mas quer chorar.
Se solta e continua andando.
Entra no metrô. Aumenta o volume dos fones de ouvido. Ainda é aquela banda esquisita.
"Ando, paro e respiro...
E fico comigo, confabulando: será que são apenas corpos vazios?
Ou será um engano?"

Penso se ela tinha outra opção. Divago sobre o destino, o livre arbítrio e aquela teoria sobre Caim ter transado com a uma macaca e daí ter iniciado a evolução. Até hoje essa é a resposta mais condizente. Criacionismo e evolucionismo andando juntos.
"Não. Engano não.
Eu sinto no ar o silêncio na multidão".

Enquanto eu observo seu percurso, imagino o que tanto ela pensa. Tão sozinha. Tão vulnerável. 
Observando e absorvendo.
Meu papel nessa história é apenas registrar os desencontros que acontecem por aqui, os que eu consigo ver pela minha janela.
Essa foi só mais uma noite daquelas.
Lembra daquele verso "parece cocaína mas é só tristeza"? Às vezes é só cocaína mesmo.
"Eu vejo as pessoas que passam por mim, que falam, que ralam, que gritam em agonia e solidão. Dói no coração ver meu povo silencioso".

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Me deu saudade de Pernambuco

Eu quero ter o sotaque das raízes da minha família.
Quero falar arrastado, afoito e alto.
Acho lindo o China cantando Erasmo e Roberto levado pelo Mombojó.
Quero frevo, calor, água de coco e praia.
Quero chinelo, short, vestido e porque não saia?
O sofá da minha avó, o leite que desce pesado e que eu nunca me acostumei.
Os pés de fruta da casa da dona Deci que eu passava tardes sentada debaixo comendo o que caía.
As compotas de caju, mamão e figo que ela fazia e me ensinava o ponto.
As fantasias de carnaval que ela e minha vó costuravam na salinha de 2 m².
Trote dos cavalos e o cheiro de chuva que trazia consigo os sapos na calçada.
Dia de feira com queijo fresco,  missa bem vestida sentada do lado do filho do prefeito que gosta do sotaque paulistinha.
Os sabores do pernambuco são muito mais intensos.
O cheiro de suor, de música boa e de vida simples me fazem lembrar do meu avô.
Me ensinou a andar de cavalo, colher caju e assar castanha.
Dizia baixinho que eu era a neta preferida e ficava horas me contando da vida, dos 28 filhos e da primeira esposa.
Pena que não me lembro muito bem das histórias, só dos olhos azuis naquele rosto todo queimado de sol, os guias de Iemanjá no pescoço e o chapéu de vaqueiro.
Seu Antônio Felipe.
Me contou teorias sobre o fim do mundo durante a virada do ano, enquanto a cidade inteira passava o réveillon trancada em casa de luzes apagadas com medo do bug do milênio.
Minha avó Judite, cega de um olho, costurava inúmeros modelos de vestidos para as minhas bonecas.
Cada uma tinha o guarda-roupa próprio, vestido de noiva e moda praia.
Quando o carro do pão passava na rua, já sabia a quantidade que ela pedia e com a porta sempre aberta, entrava na sala e a chamava.
Os macaquinhos que moravam no quintal de trás e só iam no ombro dela. O milharal, as flores e as galinhas cantando enquanto engordavam.
Tio Cil, o único que permaneceu por lá, me levava na garupa da moto pras cidades vizinhas, me apresentava pra todo mundo e o centro de Garanhuns era pequeno pra imensidão do mundo que eu conseguia enxergar.
Tia Rose e o primo Flavio, sempre tão queridos, conversávamos como gente grande e eu, no auge dos 11, nem tinha ideia do tamanho da saudade que eu iria sentir.
Hoje, no último ano da faculdade, trabalhando e tentando equilibrar a leitura do livro novo, show que já comprei ingresso e o tcc, só queria me deitar na rede do quintal e ter como única preocupação o leite que não me fez bem.


sábado, 19 de abril de 2014

maldito seja quem olhar pra trás

Eu sempre carrego muito peso.
Das coisas que já passaram e que ainda permanecem dentro de mim.
Tento filtrar da melhor maneira pra que não impacte negativamente nos dias atuais.
Mas tem coisa que é impossível de esquecer...
Como as discussões que eu evitei. As mentiras que eu fingi acreditar. Os abraços que ficaram só em abraços, os beijos que se estenderam demais e as mensagens que eu nunca respondi.
Dizem que isso que eu sinto é só inferno astral.
Popularmente (ou astrologicamente?) é o mês que antecede o aniversário e tudo que pode dar errado, vai dar.
Mas me disseram que passa assim que completa mais um ano de vida.
O meu dura mais tempo que o esperado, talvez.
Tanto faz. Não acredito nessas coisas.
Além do peso, carrego comigo os traços de todos eles.
A paixão por cozinhar, de ouvir Blur, chorar no show do Dance of Days, timidez, descrença, escritor preferido.
Desapego rápido da presença, mas guardo retalhos das recordações.
Costuro uma colcha com eles.
O frio que eu sinto não desaparece.
Mesmo que eu tente me cobrir.

por todos esses anos
aprendi muita lição
só não consegui voar
com os pés presos ao chão

terça-feira, 25 de março de 2014

Não sei fazer título nem usar vírgula

Eu gosto de escrever. Me faz bem e eu consigo me expressar melhor, consigo ouvir e entender algumas ideias e opiniões que não seria capaz de pensar sem anotar nada.
Esses dias, durante a aula de Livro Reportagem e Jornalismo Literário, o professor pediu que fizéssemos um perfil, ou seja, escrever sobre alguém que tenha uma história legal pra contar. Logo eu pensei em usar algum texto dos arquivos aqui do blog, como o que escrevi pro meu pai ou sobre um grande amigo que fiz há uns anos. Comecei a reler, mexer nos arquivos e me senti lendo textos de outra pessoa, não parecia ter sido eu que escrevi tudo aquilo. Mas ao mesmo tempo eu me sentia dentro de tudo, lembrando dos acontecimentos e encontros que renderam todas aquelas recordações, falas e decepções que eu escrevi no auge da situação.
É engraçado e ao mesmo tempo parece que eu vivi uma outra vida durante o passado. Mudou tanta coisa que nem me dei ao direito de pensar sobre isso. Sobre mim.
Durante o intervalo dessa mesma aula, entre uns cigarros e uns amigos, rolou uma discussão sobre política. Outra luz (não aquela da lâmpada de ideia, sim de um farol bem estourado) me fez perceber uma grande mudança: -- porra, é sério que eu tô falando sobre partido, comunismo, esquerda ou direita? 
E na faculdade, com amigos de idade parecida, todos na zona dos 20 e alguns, expusemos opiniões, demos risada e debochamos (a maior parte era séria, mas teve gente que achou graça de verdade) e só pude ter certeza de quanto mais eu penso sobre como estão as coisas ao meu redor, mais se torna perigoso estar aqui.
Na volta pra casa, depois de um pit stop, rolou mais conversa sobre música e ideologias (sem aspas) que abraçamos na adolescência e hoje em dia nem a banda, nem você acreditam que toda aquela revolução -- que já nos fez chorar num show dentro do Hangar 110, -- vá dar em alguma coisa.
É difícil admitir que a gente sabe demais.
E quem foi que disse que isso é bom?
A meditação ocupou o lugar das idas à psicóloga. Tem horas que sinto falta.
Era mais fácil pagar pra uma pessoa me dizer tudo aquilo que eu já sabia, do que ter que admitir sozinha que tenho preguiça de ter iniciativa.
Deve ser só um devaneio dessa vida capitalista que eu levo.
Me matriculei num curso de extensão pra aprender a criar título.
Outra coisa que parece bobagem, mas a minha chefe disse que é importante.
Ela me disse também que tenho dificuldade em usar vírgula. Ou uso demais, ou de menos.
Só não sei se tem algum curso que ensine isso. Talvez eu precise largar a faculdade e voltar pras aulas de português do ensino fundamental.
É coisa demais pra pensar. Preciso tomar uma cerveja...
Mas fica pra depois.
Ainda preciso terminar 3 matérias aqui no trabalho e decidir qual texto vou entregar pro professor.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

No país da bunda e do carnaval, é proibido ser gordo*

*Título em referência à esse texto da jornalista Juliana Romano no Brasil Post (12/02/14)

Me considero uma mulher normal.
Mas aí depende do que é normal pra você.
Sempre fui a gordinha bochechuda que todas as tias da família adoravam apertar e me deixar constrangida. Timidez (que depois de muita terapia entendi que na verdade é introspecção) é uma das minhas características também. Eu ficava rosada, sem graça e desde que entendi o que é ser gorda, ou melhor, uma mulher gorda, eu me questiono.
Nunca sofri bullying na escola por causa do meu peso. As crianças de 15 anos atrás (pelo menos durante meu tempo de escola) não se importavam muito com isso, eu me sentia confortável e tinha mais amigos meninos do que meninas, a gente jogava bola, colecionava tazo, lia livros juntos e se divertia bastante. Sempre achei as minhas - poucas - amigas bem parecidas comigo: lembro da Paula, ela era bem magricela e tinha cabelo liso, preto e com franja. A Karem era alta, magra e loira com um lindo cabelo cacheado. A Tati também era loira, tinha o cabelo liso bem fininho. Não era gorda nem magra, tinha sido transferida de escola e se aproximou da gente. Eu sempre fui mediana, meio gordinha (meu uniforme era um número maior do que das meninas), meu cabelo era cacheado e mesmo assim, éramos iguais. 
Quando mudei de escola na 5ª série, o colégio era conhecido por ter 20 salas cheias durante os 3 períodos e acomodava alunos até o 3º ano do Ensino Médio. Conheci a minha melhor amiga (até hoje!) e também minha chará, ela era mais parecida comigo: usava o mesmo número de uniforme, tínhamos os mesmos assuntos e curiosidades, morávamos perto uma da outra e isso nos aproximou bastante. Tinha encontrado a minha "turma".
A gente foi crescendo, conhecendo pessoas e voltaram as minhas tias e seus comentários sobre o meu peso, tamanho da roupa, como eu calçava 38 aos 14 anos e por aí vai. Mas as minhas tias eram na verdade garotas de outras salas, estereotipadas com seus cabelos lisos com luzes loiras, jeans sem bolso no traseiro (dava a impressão da bunda ser maior) e blusinhas da cow girls com as costas nuas. E como eu me sentia? Normal. O que eu tinha de diferente?
Ilustração: negahamburguer.blogspot.com.br
Eu ainda não tinha entendido a gravidade do problema.
Terminei a escola, passei no vestibular e estou no último ano de Jornalismo. Aos 20, ainda andando com as mesmas pessoas, tendo mais amigos homens do que mulheres, agora ao invés de ir pra casa da turma a tarde depois da aula, a gente se reúne num bar pra jogar conversa fora e beber cerveja, eu me sentia normal. Falo de sexo, cocô e cinema com facilidade. Dou risada alto, xingo, vou pra lugares que eu não iria sozinha, só pra acompanhar os meus amigos e me divertir e às vezes exagero na bebida. Nunca me disseram que eu estava fora do contexto, na verdade, quando um cara tentou me convencer do contrário, resolvi que o errado era ele e não eu. E mesmo depois de perder quem eu achava que era o "amor da vida", (mas na realidade não me aceitava tão bem assim na frente dos amigos) ainda não tinha caído a ficha de que eu não era tão normal assim pras outras pessoas.
Eu era gorda. Eu não me importava com a grife do meu jeans ou a marca do meu tênis. Saía com o cabelo molhado enrolado num coque e um moletom de capuz quando estava frio. Um short e havaianas quando estava calor.
Isso não é sobre o que eu visto, é sobre o tamanho das minhas roupas. A dimensão do meu corpo, que aparentemente no meu espelho parece mil vezes menor do que na vista das outras pessoas. 
O fato de eu não me importar chama a atenção nos corredores da faculdade, na mesa do lado no bar ou na calçada enquanto eu fumo o meu cigarro. O dinheiro que eu ganho trabalhando pra pagar a mensalidade do último ano teria que render o suficiente pra eu beber uma vodca mais cara, comprar roupas ao invés de porções de salame e claro: fazer regime.
Sabe o que é mais engraçado? Eu tive que aprender tudo isso sozinha. "Aprender" que ao meu redor eu era motivo de curiosidade: "como você é tão nova e não se cuida?", estar acima do peso é sinônimo de doença. Eu, que por ser filha única de mãe metódica e super protetora, sempre tive meus exames em dia, nunca tive colesterol, diabetes ou pressão alta. Se dentro da minha casa, no meu quarto, no meu espelho eu me sentia bem, qual é o direito do outro em se importar com o meu corpo?
Ilustração: negahamburguer.blogspot.com.br
Eu não gosto de tirar selfies, encher o feed do Facebook com fotos minhas, me exibindo em alguma pose ou postar frases de algum poeta que está na moda. Isso influencia a minha personalidade, a mulher normal do meu mundo não é a mulher maravilha, não é uma modelo ou a capa da revista que promete fazer você perder 4 quilos em 15 dias fazendo a dieta do chá. Parafraseando a jornalista Ju Romano: "Eu sou assim, gordinha, com a mente muito mais rápida que o metabolismo."
A minha aparência é muito pouco e muito pequena perto da mulher que eu posso ser. Li muitos relatos de outras meninas que se sentiam - e sentem - como eu e aprendi a amar, cuidar e depois de 20 anos, assumir a escolha de ser como sou. Não quero dieta, não quero pudores, não quero me adaptar. Não vou chorar dentro de um provador me olhando no espelho e me sentindo mal, com uma "culpa" de ser como sou.
Cultivo minha beleza de dentro pra fora. E com o passar do tempo, das pessoas e dos padrões, eu vou seguir com o desejo de ser melhor a cada dia, do meu jeito, como eu quiser.

• Juliana Romano, jornalista e dona do blog Entre Topetes e Vinis que aborda assuntos como a "quebra de padrões" e tendências de moda plus size, publicou as Confissões de uma Mulher Normal, que me inspirou no desabafo acima. As ilustrações que utilizei são da Negahamburguer, uma artista chamada Evelyn, que abraçou e deu forma ao Projeto Beleza Real, que tem como objetivo "mostrar através de intervenções urbanas as histórias reais de pessoas que por culpa do padrão de beleza que é imposto, já sofreram algum tipo de preconceito por serem gordas, magras, altas, baixas, negras, albinas, ou qualquer outra condição linda que a nossa sociedade insiste em falar que não é bom ou bonito. Estamos aqui para mostrar que isso é mentira e todxs nós somos lindxs porque somos reais."

  Aceite o seu corpo 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Nada de Importante

Vou ligar para a psicologa e desmarcar a consulta.
Não.
Vou ligar pra você e dizer a verdade.
Isso seria o mais provável, e é obvio que não tenho essa coragem toda.
Vou ouvir Arnaldo Antunes e Seu Jorge até enjoar e me sentir com 15 anos outra vez.
Seguir a linha azul do metrô - Jabaquara, Tucuruvi - só pra perder a noção do tempo.
Posso assistir sessões seguidas no cinema também.
Sair do shopping depois das 22hs, parar no bar e tomar um açaí ou uma cerveja.
Ou duas. Três.
Também vou pintar as unhas e cortar mais o cabelo.
Fazer uma tatuagem ou outro piercing.
Desligar o celular pra não ter que ver as mensagens de convite pra beber.
O dvd do Laranja Mecânica já está rodando de novo.
Falo junto com Alex DeLarge. Decorei o script.
Terminar de ler aquele livro seria uma boa... Ao invés disso vou comprar mais um do Carpinejar.
Vou ver álbuns de casais que conheço e me questionar se toda aquela felicidade é de verdade ou é só pose pra foto.
Preciso seguir com a terapia.
E reler àquele trecho de Freud que eu anotei à mão no moleskine.
Comprar um jeans colorido e ir num show.
Esperar o metrô abrir sentada no sofá da pastelaria ouvindo a conversa dos outros.
Ler enquanto as pessoas digitam mensagens em seus celulares.
Comprar o jornal.
Ler o horóscopo.
Mais um livro de bolso do Jabor.
Gosto de crônicas. Me soam tão reais...
Todo mundo fica na bosta um dia.
O meu problema é que eu não demonstro. Eu escrevo. Registro. O que é bem pior, pra falar a verdade.
Posso sentar numa mesa do Mc Donald's e conversar durante horas sobre como eu me sinto ridícula.
Mas eu vou juntar as frases com uma foto e guardar num link.
"Preciso de coragem, não de terapia"
"Mil e uma coisas para fazer depois de dormir com alguém"
Quem sabe um dia não vira livro.
Crônica.
E alguém compre numa banca de jornal, mais um livro de bolso.
Custa só 5 reais.
É mais barato do que passar o dia no cinema.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Ao início, o fim e o meio.

Ele não me disse adeus.
E quando voltou, também não me cumprimentou. 
Mas desde sempre foi assim: a gente conversa só o necessário.
Não nos damos beijo de boa noite, nem confessamos sentir saudade, muito menos abraço de feliz aniversário. Pode parecer estranho e frio, mas a gente se dá bem assim.
Desde o começo, quando eu pedia ajuda pra terminar alguma atividade da escola e ele me dava um livro sobre a matéria e mandava eu ler. Eu me irritava com a falta de atenção, hoje eu entendo o lado dele. 
Ao contrário do gato que a gente cria, que ele faz carinho e não hesita em proteger. Pode soar arrogante, mas a gente se dá bem.
Ele me apresentou o rock, o Raul Seixas, Bee Gees e o Lobão. Quando todo mundo tinha um disk man, ele me deu um Philips que tocava LP, fita K7 e CD. Na coleção de discos dele, tinha uma pilha só do Roberto Carlos e Erasmo, foi quando eu entendi a importância da música pra expor sentimento.
É ateu, ri quando vão à missa e nunca entra em igreja. Não por ser chato, mas por respeitar tanto que não consegue invadir o espaço de ninguém pra ofender a crença alheia. Não se incomoda com os meus incensos ou papos sobre Buda e liberdade.
Quando eu estava chorando por causa dos namoradinhos e ele me ignorava e eu sentia tanta raiva... mas hoje percebo que ele sabia pelo que valia a pena chorar.
Lembro também da primeira vez que eu fui suspensa no ensino médio e ele teve que ir na escola me buscar. Nunca senti tanto medo e coragem ao mesmo tempo: será que ele finalmente iria abrir a boca e gritar comigo? Demonstrar qualquer sentimento, mesmo que seja raiva? Não. Ele me ignorou por um mês, mais ou menos. Ou até esquecer a decepção.
Me levava aos sábados de manhã pro curso de inglês ouvindo Raul no volume 23 e me dava um orgulho tão grande ter um pai que me dava tantas boas influencias sem falar uma palavra. Pagava com orgulho, mas nunca se interessou se eu estava progredindo. Era da mesma forma na escola, no cursinho e hoje na faculdade. Será que é confiança ou ele só quer saber quando dá alguma bosta?
Ele nunca me deu presente em datas comemorativas, sempre ganhava dinheiro pra comprar o que queria. Ao mesmo tempo que achava demais, sempre me faltou alguma coisa. Assinava os cheques para todos os passeios da escola, me dava uma das parcelas do décimo terceiro pra eu comprar roupas e tênis pro natal, quando eu sequer sabia o que era ter um emprego ou muito menos o que é trabalhar 20 anos no mesmo lugar.
Quando chegou a hora do vestibular, me perguntou se a primeira opção era Biologia. Eu calei. Depois de 18 anos de silêncio, não queria desapontar a única certeza que ele tinha: a filha seria uma bióloga. Respirei e disse que ia ser Jornalismo e que não teria segunda opção. Bateu o cigarro no cinzeiro, olhou pra mim e perguntou se era isso que eu queria fazer o resto da vida, eu respondi que o resto da vida era muito tempo, mas era isso que eu queria agora. Me apoia há 3 anos e há um de me formar, ri quando eu digo que terá de dançar comigo na formatura.
Tenho planos de ir pra fora, comprar o primeiro carro ou um apartamento. Ele me conselha à usar o dinheiro da faculdade pra dar entrada num apartamento, fazer igual ele, investir em imóveis ao invés de carro.
Ele sempre quis ter uma filha mulher, mas queria 3. Nasci só eu, a única da vida, e hoje, aos seus 47 anos, ainda não o conhece tão bem ou já sei o suficiente pra manter uma boa relação.
Eu tenho tudo dele, da orelha até o formato do pé, o jeito frio de expressar alguma coisa ou a paciência pra ouvir a minha mãe conversando às 6h30 da manhã.
Feliz aniversário, pai. Obrigada por me dizer tanto sem falar nada.



quarta-feira, 10 de julho de 2013

O café que nunca aconteceu



Tenho vivido mais tempo do que o esperado. Desde criança, àquela fase que a gente começa a fazer planos e pensar em como será a vida de adulta, eu me imaginava sempre à frente do que era real. Com 10 anos, eu sonhava em ter 15 pra poder namorar. Com 16 comecei a trabalhar, terminei a escola e prestei o vestibular pra jornalismo, jogando no lixo a esperança do meu pai em ter uma filha bióloga. E tive o primeiro relacionamento que durou 3 anos. Com 17, já na faculdade, saí do primeiro emprego e tive tempo suficiente pra pensar sobre o que eu realmente queria e as notícias nunca foram tão boas.
Eu nunca vivi a idade que eu tive, sempre quis testar ideias de um futuro que eu nunca tinha certeza que ia chegar. Mas uma coisa é certa: Eu sentia medo dos 20. Ter 20 é estar perto dos 30, é estar prestes a terminar a faculdade, traçar a carreira profissional, ter mais dívidas do que dinheiro na conta, ter menos amigos do que já imaginou, ter receio de relacionamentos e o medo do futuro, pela primeira vez, me fez querer desistir.
Falta pouco mais de um ano pra eu me formar, não guardei dinheiro, não tenho carro nem iphone. Uso as mesmas calças jeans há um bom tempo, só compro outro tênis quando a sola do anterior rasga. Será que esses são os problemas dos jovens adultos atuais? Quando os meus pais tinham 20, será que eles tinham essas preocupações?
Da galera que estudou comigo no ensino médio, uns 5 fazem faculdade, outras 10 já tem filho e as demais namoram um cara que tem dinheiro e não se preocupam com nada além do cabelo loiro e liso. 
Acho que me preocupo demais. Engraçado, a minha psicóloga ri dos meus medos e diz pra eu me jogar e deixar as coisas acontecerem. Mas aí que está: não consigo não ter controle do que está acontecendo comigo. E como a vida é cheia de tropeços, me apaixonei. Pro meu desespero. Pra minha loucura. Adubo pra insegurança.
Logo os meus 20 se tornarão 20 e uns, e hoje eu só queria ter 30 e um emprego fixo. Ter um gato e um apartamento pra voltar e ficar sozinha a noite. Mas isso é só especulação: ontem conversei com um amigo sobre casamento e abrir mão de carreira por amor. Que irônico. Eu traçando planos com um cara que eu nunca toquei, deixando abertamente claro que a minha pose de durona é só faixada, e na verdade o que eu mais quero é ter liberdade de gostar de alguém sem me julgar. O inimigo é sempre eu mesma. O problema é sempre comigo, a gente ainda pode ser amigo...
Tenho medo de arriscar e perder. Tenho medo de ficar na mesma. Não quero me jogar sem saber que ele vai estar lá pra me segurar. Não quero fazer papel de palhaça. Tenho medo de palhaço, sempre tive.
Quero vencer a idosa de 80 anos com 13 filhos que eu devo achar que eu sou e aceitar que eu me posso me apaixonar e ser interessante o suficiente pra algum cara. Eu penso demais nos outros. Devo guardar trauma dos 3 anos de casamento e me sentir uma divorciada sem qualidades.
Queria conseguir viver um dia de cada vez. Viver os 20 com plenitude de 20, com um namoro de plástico, emprego de recepcionista de consultório odontológico e 10 quilos a menos.
Mentira.
Me dá repulsa imaginar uma vida assim. (os 10 quilos a menos não é má ideia!)
Tomar café com pessoas do passado talvez seja a maneira que eu arrumei de manter elos e reviver os 15, 16, 17 anos que passaram sem que eu percebesse. A gente se reúne e bebe cerveja como gente grande, dá risada e relembra casos e histórias que na época não passavam de bobagem. Hoje é tão nostálgico rir das besteiras que a gente fazia e achava que tudo teria uma consequência, e a única coisa que eu guardei de tudo aquilo foram poucas fotos, alguns bilhetes de cinema, tampas de garrafa, cartinhas e uma aliança de compromisso de um ex que hoje é meu melhor amigo gay.
Existe um café marcado desde Março. É um daqueles encontros que a gente faz de tudo pra que aconteça, mas sabe que não. A gente sabe que vai relembrar coisas que viveu demais.
Despertar nos 20, enfrentar algumas horas de sono mal dormido e convencer a psicóloga que eu não posso ter passado tanto tempo adiando as situações.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O tempo não pára e a gente ainda passa correndo

Eu fiquei aqui... tentando agarrar o que eu puder...


2013 já começou. Aconteceu tanta coisa.
Me sinto devagar, cansada, ainda não sei. Estou bem, estou feliz como há tempos não estive.
Sei que tudo o que espero, só depende de mim. Não espero dias de sol e nem reclamo da chuva. Aprendi a contemplar o céu independente do que ele tem para me oferecer.
Deus está nas pequenas coisas... No assento que eu dou para alguém no ônibus, ou no guarda chuva que eu compartilho com alguém que eu não conheço, mas também estava indo pra faculdade onde estudo.
A paz que eu sinto está na ida ao supermercado com os meus pais, com o churrasco de domingo só para nós três. Ou na visita de alguém da minha família, das fotos que nós revemos e damos risadas.
Gosto de quando lembram de alguém que não conheci. Sinto o passado cada vez mais vivo, mesmo que esta pessoa não esteja mais.
Aprendi a apreciar a mudança, o novo uniforme, as meias que eu rasgo tentando vestir e até as novas preocupações que eu sou responsável. Todo dia eu aprendo alguma coisa. Admiro quem está do meu lado, incentivando o meu crescimento e dividindo o conhecimento.
O meu caminho está sendo traçado sem eu sentir... 
Completei um ano de GHSP e olhar pra trás não é tão ruim assim. O rumo continua sendo o mesmo, os amigos que cativei na estrada continuam do meu lado e me querendo bem. 
Quando penso nisso tudo, me dou conta: E cara, como eu sou feliz.
Meus amigos continuam me fazendo rir até perder o fôlego e sendo o meu escape para todo o prazer imediato que eu sinto vontade. Os amores estão espalhados por aí... Nem sempre é como deveria ser, ou talvez seja, eu que não descobri o ponto de vista certo para enxergar.
Há felicidade no erro. Aprender é ser feliz, poder tropeçar, cair e levantar sabendo onde consertar.
Os planos estão mais vivos do que nunca, a faculdade me cansa, os livros estão encostados e não sei administrar a procrastinação que habita em mim. Mas vai dar tudo certo.
Acendo a vela e o incenso, repito àquele mantra e me encontro. Fico em paz, feliz. O caos fica pra fora, e quando acordo, começo tudo de novo.

Atitude do mês é a tolerância.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Depressão comum num belo vestido

Ingênuo, engraçado e desprendido.
Alma livre e corpo preso. Sinto que já vi esse filme...
Me deixa a vontade com a mesma leveza que me leva a corar as bochechas. Caí na besteira de confessar que poucas pessoas conseguem me deixar sem graça. Mais uma exceção.
"You met me at a very strange time in my life" - lembrei. Àquela fase de final de ano, que normalmente eu penso no decorrer dos meses e tento fechar a conta, ele surge. É sempre assim, ele sempre vem pra mais um drink.
Sensação de que já estive nesse lugar. Uma outra vida choca com a minha realidade e sem perceber, estou dentro da história, sendo de novo, antagonista de um enredo que não me pertence.
Turbilhão de devaneios que fazem onda na minha cabeça... Mania de sempre achar que os dez por cento dos meus erros será alguém que não se encaixa no quebra-cabeça. 
Queria entender tamanha intensidade em relacionamentos de três semanas, e porque causam tanto estardalhaço em mim. 
E a vida segue, comigo pulando de livro em livro, fazendo participação em alguns capítulos e retornando pra estaca zero.
Afinal de contas, é sempre bom poder recomeçar.




I swear to God I could not hurt you
I've got to be inside your virtue
I can't contain my urge to search you


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Espera aí, voltando. Vou começar antes disso

Ando nostálgica.
Ando, no sentido de caminhar. Passo a passo. Um depois do outro.
As ideias e lembranças passam despercebidas, normalmente. Até eu me dar conta de que passo mais tempo recordando, do que vivendo.
Aí acontece alguma coisa. Eu fico mais feliz. Tenho um ótimo rendimento na faculdade, no trabalho e na vida pessoal. É engraçado, porque até um ano atrás, eu jamais imaginaria que tudo isso pudesse acontecer. Parece irreal contar pra alguém que estou orgulhosa comigo mesma, mas é o que está acontecendo: Estou com vergonha de dizer que estou feliz.
Feliz com o futuro que está cada vez mais presente, com o trabalho que logo completará um ano de realizações profissionais e pessoais; com o voluntariado e a confiança que recebi e transmiti, os amigos conquistados. Estou feliz com a minha família e com os domingos em que eu não abro a janela do quarto e fico só comigo. Feliz em ir pro sertanejo e beber vodca com soda e dar risada com o pessoal do hotel. 
Continuo com má sorte nos relacionamentos, mas aprendi a lidar com isso. 
Sinto que nunca estive tão realizada. 
E ninguém além de mim, sabe disso. 
Passo quase que invisível entre a vizinhança, que apenas me vê saindo pra trabalhar de vestido e tênis, e ouve o barulho das minhas chaves tarde da noite, quando volto da faculdade. Ou quando sento no vagão no trem com os meus fones de ouvido e livro de numerologia e astrologia. Fico tentando imaginar o que as pessoas pensam de mim, e a conclusão foi que elas não me percebem. Sou o carro da Mulher Maravilha. 
Peguei um final de semana pra reformar o meu quarto. Comprei as tintas e retoquei o amarelo da parede, mudei os móveis de lugar e finalmente arrumei a biblioteca. Agora só falta trocar as fotos do mural e instalar a prateleira. Deu ainda mais vontade de ter a minha própria casa. Não tenho nenhum conflito em morar com os meus pais, mas o desejo de sair daqui não é mais tão utópico assim.
Dentre os pacotes que estavam em cima do guarda roupa, estavam as pelúcias que ganhei enquanto namorava. Foram três anos que hoje me dá a impressão que nunca existiram. Os coloquei em cima do lençol recém esticado sob a cama; decidi pensar que acabei de comprá-los.
Agora, escrevendo isso como se estivesse dissertando sobre o tempo de consertos pessoais, posso deixar 2012 ir com os abraços em que dei nos treze 'orgulhinhos' que depositei toda a sorte que eu podia. O próximo vai ser recebido de casa nova, quarto amarelinho gema, incenso de alfazema queimando e exalando o aprendizado de caminhar até aqui.
A felicidade e o orgulho de ser quem sou, chegaram. Não precisei ouvir de outra pessoa, entendi que a gratidão que eu ofertei era necessária pra eu estar em paz, hoje.
Andando, nostalgicamente, voltei até o agora.

Minhas primas e eu - São Carlos/SP (1995)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Retrato sem porta

Foto por mim.
flickr.com/photos/ste_silva


Socorro!
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir...

Socorro!
Alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada...

Socorro!
Alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta...
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva...

Socorro!
Alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento
Acostamento, encruzilhada
Socorro! Eu já não sinto nada...



Arnaldo Antunes já cantava minhas lamúrias.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O diabo sempre vem pra mais um drink

Eu ia escrever sobre você.
Sobre o fim, sobre como eu me senti tendo que desistir.
Me senti mal, mas depois fiquei bem. A única certeza é de que tudo passa.
Eu sabia que aquele não seria o último. Embora tenha sido o primeiro.


Ainda te vejo no ônibus e sinto teu cheiro aleatoriamente.
Mas preencho meus dias com alegrias avulsas.



Você precisa sumir.
Nada disso faz sentido.
Isso não estava
Nos planos,

Acho que preciso mesmo de férias.






Quando molhei os dedos pra virar a página,
Gemi,
E
Me lembrei
De
Você.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

As leituras e o amor podem prejudicar a sua saúde


Liberdade na vida é ter um amor pra se prender. 
- Carpinejar

O perigo do amor é virar amizade; o perigo do sexo é que você pode se apaixonar.
- Jabor

Eu ando lendo muito Capinejar. Adoro crônicas, sou fã declarada de Jabor, me transporto na forma que ele se expressa e de como fala leve sobre o amor.
Tamanha sutileza que me dá devaneios. Vou para longe quando leio e me sinto envolvida no enredo, passo de leitora para personagem principal, me encaixando em qualquer fenda que eu caiba, que eu possa desenhar eu e você no roteiro descrito por Fabrício ou Arnaldo... Não sei se isso me faz bem.
Estou passando por momentos difíceis, não consigo organizar minha cabeça e isso proporciona diversos flashes de tristeza que não parecem ser meus. Tudo está tão confuso, como diz a menininha: "Diz que ela precisa colocar a cabeça no lugar!" - Eu tento, menininha, eu tento.
Ao mesmo tempo a sensação de saber já tudo o que preciso se perde entre os relatos amorosos que sempre dão errado, que não duram o pra sempre prometido, que fazem Arnaldo e Fabrício rechearem folhas e mais folhas de livros que preenchem minha pratilheira que nunca ficou pronta.
Me sinto maçã podre que infecta todo o resto.
Tão deslocada do mundo real, não me sinto parte desse plano, acho que está tudo tão na cara e ao mesmo tempo tão distante, abstrato, irreal, inatingível... Não sei o que me prende, o que me faz querer colocar pra fora. Quero vomitar tudo e começar um novo dia de estômago vazio.
Até quando vou parafraseá-los numa infinita forma de amor que eu nem sei se existe? Estou deprimida, no estado terminal dessa doença dos anos 2000. Pareço que voltei no tempo e não sei pra onde ir, prefiro evitar o assunto e ocupar a cabeça com os incríveis formadores de opinião das aulas de segunda-feira. 
Eu não sei mais do que eu tô falando. Não sei se deveria ter dito algo, não sei se sinto demais ou me falta coragem pra sentir.





 

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